Todos temos qualquer coisa para dar ao mundo

“A crise pode ser definida como uma fase de perda, ou uma fase de substituições rápidas, em que se pode colocar em questão o equilíbrio da pessoa. Torna-se, então, muito importante a atitude e comportamento da pessoa face a momentos como este. É fundamental a forma como os componentes da crise são vividos, elaborados e utilizados subjectivamente.”*

No campo da Psicologia, o conceito de crise é explicado como uma situação de mudança a nível biológico, psicológico ou social, que exige de uma pessoa ou grupo, um esforço extraordinário para manter o equilíbrio ou estabilidade emocional. É por isso normal que quando se atravessam períodos deste tipo, nos sintamos desanimados, desesperados, sem saber o que fazer, e por vezes isso nos leve a uma situação de aceitação com o paradigma que nos é imposto, mesmo que essa situação não seja a melhor para nós.

Mas é também nestes momentos de crise que se dão as maiores mudanças. Que se levantam pessoas com vontade de mudar o mundo, de fazer algo para melhorar a sua vida e a dos que os rodeiam, e a sociedade avança e evolui graças a essas pessoas.

Tenhamos em atenção casos como os de Carolina Cruz ou Craig Kielburger.

A Carolina Cruz é a actual CEO da Sapana, e, juntamente com Miguel Jerónimo, uma das forças motriz do Jagruthi Moov, que inspirou o Faz+. Eis o que podemos saber sobre ela na NESTA magazine de Junho de 2012, a edição sobre empreendedorismo social:

Carolina Cruz“Carolina Cruz orgulha-se de ter conhecido a sua independência aos 17 anos. Decorria o ano de 2009 quando criou um negócio de consultoria de Organizações Não Governamentais (ONGs). “Quando nos vem uma ideia à cabeça temos duas hipóteses: ou a colocamos de parte, ou a vamos testar no terreno”, afirma. Optou por esta última hipótese e partiu para o Tibete, Nepal e Índia, onde esteve durante um ano e acabou por trabalhar num orfanato de uma aldeia muito pobre, construindo com fundos próprios um sistema de bolsas para as crianças poderem estudar e ir para a universidade. “Acredito que o dinheiro é para se investir e foi o que fiz”, explica orgulhosa. E reforça, dizendo: “As crianças órfãs daquelas regiões só têm oportunidade de estudar se a sua formação for paga. Estamos a falar de valores de €150 para garantir que uma criança possa concluir estudos equivalentes ao 12º ano. Qualquer ser humano pode fazer o mesmo.” Batizada de SAPANA (sonho) DIDI (irmã) pelos locais, foi ainda trabalhar com crianças e mulheres nos slums (bairros de lata), vítimas de múltiplas formas de violência. “A única diferença entre eles e eu é o país onde cada um nasceu e isso abala os nossos conceitos. Quando se trabalha com a pobreza extrema da raça humana e sentimos o que é estar na base da pirâmide, aprendemos a relativizar as nossas vidas e assistimos à força extraordinária que existe dentro de nós para um projeto como este. É preciso sentir as coisas”, recorda. Hoje reconhece que foi graças ao contacto com essa realidade que a sua própria pessoa mudou, reescrevendo assim a sua missão: salvar vidas.

De regresso a Portugal, conheceu alguns dos seus atuais parceiros no bootcamp do IES/INSEAD em 2011, como o engenheiro Miguel Jerónimo. Com dois projetos inéditos lançados em Portugal, um com reclusos da prisão de Caxias e outro no contexto da violência doméstica, criaram o programa Back to Basics, que aposta no empowerment de indivíduos e grupos sociais. Apostando em simultâneo na consciencialização das sociedades para este tipo de causas sociais, ajudam os jovens a desenvolverem-se e a partilhar esse desenvolvimento com os que os rodeiam, utilizando o potencial de cada indivíduo para fazer evoluir qualitativamente o meio social onde se inserem. “Cada país tem problemas de base que estruturalmente não os deixa desenvolverem-se, como a violência e a mutilação genital na Índia, ou a pobreza doméstica e a reintegração social em Portugal”, indica Carolina Cruz.”

in, NESTA magazine, Junho de 2012 

Craig KielburgerCraig Kielburger tinha apenas 12 anos quando se deparou com uma notícia sobre Iqbal Masih, um jovem paquistanês também de 12 anos, que trabalhava como escravo na indústria de carpetes, e que teria sido assassinado por falar em público contra o trabalho infantil. Foi aí que Craig sentiu necessidade de fazer algo para mudar o que estava mal com esse paradigma. Começou a juntar os seus amigos, e mais tarde também os pais dos seus amigos, e a mobilizá-los para serem crianças que ajudassem outras crianças, e muito rapidamente se criou uma espécie de pequeno grupo activista dos direitos humanos. Em pouco tempo surgiu a Free the Children Foundation, fundada por Craig e o seu irmão mais velho, Mark, com sede na garagem da casa dos seus pais. Lutam contra o trabalho e a exploração sexual de crianças e apostam na educação das mesmas. Craig teve o privilégio estabelecer contacto com personalidades como Madre Teresa de Calcutá e João Paulo II, que o ajudaram e influenciaram no seu percurso, e até Oprah Winfrey, que o apoiou no desenvolvimento do projecto, através da angariação de fundos.

Uma das experiências que a Free the Children teve a hipótese de viver foi em Israel, num momento em que juntaram crianças palestinianas e israelitas com o objectivo de ajudar um terceiro grupo, os beduínos do deserto. Inicialmente, as crianças não se deram bem, e deixaram-se contaminar pelos conflitos dos adultos. Mas com algum trabalho, a Free the Children conseguiu dar a entender ao grupo que juntos podiam fazer uma diferença para melhor, em paz, especialmente tendo em conta que nenhum deles havia, no passado, feito algum mal ao outro.

Hoje, a sede ocupa um edifício completo em Toronto e já receberam o World’s Children’s Prize for the Rights of the Child e o Human Rights Award. Aos 19 anos, Craig já tinha sido nomeado três vezes para o Prémio Nobel da Paz.

Para conhecer o projecto, visita o site oficial da Free the Children.

Concluindo:

É possível olhar à volta e perceber o que está mal. E também é possível escolher fazer algo por isso. No caso de Craig Kielburger é notório como se tratava de uma criança que se afligiu com um assunto que a chocou e organizou algo que não sabia poder tornar-se tão grande como se tornou. Mas, muitas vezes, basta dar este passo, querer fazer alguma coisa, e fazê-la. No decorrer do nosso trabalho acabam por surgir oportunidades e desafios que constroem o projecto e o transformam naquilo que este acaba por ser.

É preciso querer.


http://pt.wikipedia.org/wiki/Crise
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